Por Klauber Cristofen Pires
Vamos aqui perguntar sobre algo muito sério: quem é o maior responsável pela salvação da alma de uma dada pessoa? Bom, é certo que ela possa recorrer a um bom serviço de consultoria teológica, i.e., um padre, um pastor, ou qualquer espécie de clérico. Ainda assim, eu arrisco afirmar que lhe resta permanecer com toda a responsabilidade sobre este assunto, tanto quanto é o capitão o responsável pelo navio, por mais que se utilize dos conhecimentos do prático.
Que exista uma ordem divina, perfeita, permanente e imutável, isto parece ser pacífico entre todas as pessoas que não sejam ateístas. Entretanto, como humanos imperfeitos, nossa compreensão sobre esta ordem difere de indivíduo para indivíduo, de geração para geração e mesmo muda conforme o passar do tempo para um mesmo indivíduo.
Se ao estado atribuirmos a prerrogativa de guardar os valores de uma dada tradição teológica – qualquer que seja – ele irá cumprir a sua tarefa da seguinte maneira: tornará oficial a crença vigente e tratará como foras-da-lei quem não se enquadre nos seus termos.
Isto traz por imediata consequência confiscar os méritos de cada ser humano sobre assuntos que só dizem respeito a ele. Uma pessoa resignada a uma ordem religiosa cumpre seus ritos não por fé, mas por automatismo. Quanto aos dissidentes, eles terão de vivem à margem desta ordem, tornando-se assim cidadãos de segunda categoria, ou mesmo párias, se a repressão promovida pelo estado for violenta, como é nos países islâmicos.
A segunda conseqüência poderá ser o revanchismo dos grupos minoritários, cujo grau de repressão ao antigo grupo hegemônico dependerá da intensidade do ressentimento pelas injustiças que sofreram.
Pode parecer incrível, mas não são somente os ateus comunistas militantes os interessados na retirada de símbolos religiosos das repartições públicas. Em Belém do Pará, a imagem de Nossa Senhora de Nazaré é ostensivamente cultuada pelos servidores públicos e muitas vezes também pelos cidadãos, conjuntamente. Porém, já ouvi da boca de evangélicos fervorosos, a quem poderia quase que com certeza afirmar que não possuem uma tendência para o comunismo, que eles entendem que a figura da Virgem Maria é ofensiva à sua crença, senão até mesmo herética. Na concepção deles, ela não merece as adorações (ou devoções) que lhe são dirigidas pelos católicos.
Se desconsiderarmos uma hipotética ordem social não-estatal ou anárquica, então teremos de forçosamente concluir que o estado, qualquer que seja, precisa ser laico. Em uma ordem liberal minarquista, um estado laico não significa um estado ateu. Significa uma instituição que, por meio dos seus agentes, prometa atender tão bem a um católico quanto a um judeu ou a um evangélico.
Pode parecer a um brasileiro que isto seja um despropósito. Isto se deve a uma grande tolerância espontânea que se desenvolveu em nosso povo. Todavia, em muitos lugares não tem sido assim. Se um judeu fizer um requerimento em um órgão qualquer do estado e seu atendente for um muçulmano daqueles que fazem questão de mostrar a sua fé, seja usando um turbante ou carregando nas mãos.
Um estado liberal minarquista pode cumprir esta função. Um estado social democrata ou um socialista já não o podem, pois eles tendem a estender seus longos tentáculos sobre aspectos da vida que estão intimamente ligados às concepções religiosas das pessoas. Com o aumento do grau de intervenção, se um estado assumir uma postura religiosa, imporá os dogmas que defende com vigor cada vez maior sobre os grupos minoritários. Se ele trouxer uma herança de laicismo, ele o transformará aos poucos em um ateísmo, já que, tendo em tudo e por tudo que manter-se neutro, e tendo as pessoas cada vez mais ocupadas, subordinadas e dependentes de repartições públicas, a intensidade da prática da religião cada vez mais perde espaço para ser vivenciada.
Em uma ordem mais liberal possível, as repartições públicas tendem a ser muito poucas, e o fato de não exibirem símbolos religiosos em suas dependências em nada afeta as crenças dos indivíduos, já que eles podem praticar a religião e toda a vivência decorrente dela na esfera privada.
Klauber Cristofen Pires - Analista Tributário, formado como bacharel em Ciências Náuticas, e especialista em Direito Tributário. Já exerceu cargo de chefia na Administração Pública Federal em gerência de administração de recursos materiais e humanos e planejamento. Possui vários cursos de gestão, planejamento, orçamento e licitações e contratos. Em 2006 foi condecorado com como Colaborador Emérito do Exército, título concedido pelo Comando Militar da Amazônia. Dedicado ao estudo autoditada da doutrina do liberalismo, especialmente o liberalismo austríaco. Atualmente escreve para sites como o Causa Liberal, Manausonline.com, O Estadual.com, Parlata, Diego Casagrande, e Instituto Liberdade. Também mantém os Blogs Coligados, que reúne cerca de 40 blogueiros de todo o Brasil, e seu próprio blog, Libertatum .
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