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Ateliê 23 atravessa o Atlântico e leva teatro amazonense à Europa pela primeira vez

Companhia premiada celebra 13 anos com apresentações de “Fértil em Terras Áridas” em Portugal, onde integra mostra de teatro latino-americano

Por Manuella Barros,
quinta-feira, 3 de setembro de 2026
 
 
 

Ateliê 23 atravessa o Atlântico e leva teatro amazonense à Europa pela primeira vez
Ateliê 23 / Foto: © Eduardo Klinsmann

Em setembro, o Ateliê 23 cruza o Oceano Atlântico pela primeira vez. A premiada companhia amazonense desembarca na Europa para a pré-estreia internacional de “Fértil em Terras Áridas”, espetáculo que terá apresentações em Aveiro e Coimbra, em Portugal, nos dias 25 de setembro e 1º de outubro.

A primeira circulação internacional do grupo acontece na “Todos São Palco – Mostra de Teatro Além do Equador”, realizada pela companhia O Teatrão. Entre 17 de setembro e 17 de outubro, a programação percorre 13 cidades portuguesas e lança um olhar sobre a produção teatral latino-americana, aproximando Portugal de diferentes territórios e experiências artísticas.

A escolha de “Fértil em Terras Áridas” para marcar esse novo momento carrega uma coincidência simbólica com a trajetória do Ateliê 23. Em cena, cinco bufões retornam de uma turnê internacional e encontram a companhia da qual faziam parte dissolvida e o teatro onde trabalhavam demolido. Diante das ruínas, precisam descobrir como continuar criando.

Fora do palco, o espetáculo nasceu de uma investigação sobre os desafios de criar, produzir, circular e resistir artisticamente na Região Norte, distante dos principais centros econômicos e culturais do país. A estreia oficial em Manaus acontece em novembro, mês em que tradicionalmente o Ateliê 23 apresenta seus novos espetáculos.

“Essa é a primeira vez que o Ateliê 23 vai se apresentar fora do Brasil, é uma conquista para celebrar muito. Um grupo de Manaus poder atravessar o oceano após 13 anos de trabalho, ainda numa experiência muito particular e muito linda, que é a estreia internacional de ‘Fértil em Terras Áridas’”, afirma o diretor e fundador da companhia, Taciano Soares.

O Norte atravessa o oceano

A chegada do Ateliê 23 a Portugal também amplia a presença da produção teatral da região Norte em circuitos internacionais. De acordo com Taciano Soares, a programação portuguesa lança um olhar para o teatro latino-americano e, ao se voltar para o Brasil, busca enxergar a produção realizada além dos grandes eixos culturais do país.

“Eles olham para o Brasil e é a primeira vez que olham para a Região Norte. Eles perceberam como é grande esse discurso de que o Brasil não está apenas no eixo Rio-São Paulo ou no Sul. Estão olhando para as regiões Norte e Nordeste”, comenta o diretor.

Segundo Taciano Soares, o curador Jorge Figueira contou que chegou ao trabalho da companhia amazonense depois de receber indicações de produtores de diferentes partes do Brasil. Para ele, a chegada à Europa é resultado de uma construção feita aos poucos, a partir da presença continuada da companhia em festivais, eventos, mostras e espaços de articulação pelo país.

“É uma honra, um privilégio, a consumação de um trabalho de formiguinha que a gente tem feito, de participar de festivais, de eventos, de rodadas de negócios em todo o país. Mesmo que a gente tenha um elenco numeroso, que os nossos trabalhos sejam um pouco mais caros de circular, ainda assim a gente tem conseguido esse êxito de furar o custo amazônico, porque é muito caro sair daqui”, destaca.

“Levar o trabalho e a pesquisa das bionarrativas do Ateliê 23 para todo o país e agora colher os frutos dessa semeadura, atravessando o oceano, é muito significativo para a gente”, acrescenta Taciano Soares.

Fértil em Terras Áridas

Com direção de Taciano Soares e dramaturgia assinada por Francis Madson e Taciano Soares, “Fértil em Terras Áridas” utiliza a bufonaria, linguagem teatral marcada pelo grotesco, pelo deboche e pela sátira, para provocar reflexões sobre estruturas de poder, hipocrisia social e as contradições do nosso tempo.

No palco, Carol Santa Ana, Eric Lima, Emily Danali, Francis Madson e Taciano Soares dão vida aos cinco bufões. Sem o espaço que sustentava o grupo, eles passam a criar de maneira independente a partir das próprias ruínas.

O espetáculo teve uma abertura de processo durante a Mostra de Teatro Águas de Manaus, em agosto. Em Portugal, o público terá contato com uma versão já próxima da estreia oficial em Manaus.

Para o diretor, há uma expectativa em apresentar pela primeira vez um trabalho antes da estreia oficial em casa.

“Estamos extremamente ansiosos, não só porque é uma viagem internacional, mas pelo privilégio de fazer parte de uma programação tão criteriosa, selecionada, e fazer a pré-estreia. É a primeira vez que a gente faz uma pré-estreia de um espetáculo”, comenta Taciano.

Mostra de Teatro Além do Equador

A “Todos São Palco – Mostra de Teatro Além do Equador” acontece entre 17 de setembro e 17 de outubro e percorre 13 cidades de Portugal: Coimbra, Aveiro, Loulé, Mafra, Penafiel, Santarém, Alcanena, Ourém, Viana do Castelo, Águeda, Lousã, Marinha Grande e Porto.

“Faremos duas apresentações, em Aveiro e Coimbra, uma oficina de atuação e performatividade com os artistas portugueses, sobre o modo de atuação do Ateliê 23, e uma roda de conversa sobre o processo de criação do trabalho do grupo e do espetáculo em si”, detalha Taciano Soares.

“Nossa participação será um marco para firmar parcerias e voltar com outros trabalhos depois, com os espetáculos que temos em repertório”, projeta o diretor.

13 anos de trajetória

A escolha de “Fértil em Terras Áridas” para marcar a estreia internacional do Ateliê 23 também tem um peso particular dentro da trajetória artística da companhia. A montagem encerra uma trilogia iniciada por “Cabaré Chinelo”, em 2022, e continuada por “Sebastião”, em 2024, dois dos trabalhos responsáveis pela projeção nacional do grupo.

“Cabaré Chinelo” recupera histórias de mulheres exploradas sexualmente em Manaus durante o Ciclo da Borracha. O espetáculo levou a companhia a uma indicação nacional ao Prêmio Shell de Teatro e conquistou reconhecimentos no Prêmio Cenym de Teatro Nacional e no Festival de Teatro da Amazônia (FTA).

Já “Sebastião”, inspirado no livro “Um Bar Chamado Patrícia”, mergulha nas memórias LGBTQIA+ e na boemia de Manaus na década de 1970. Entre os reconhecimentos conquistados pela montagem está o prêmio de Melhor Elenco no Cenym de Teatro Nacional de 2025.

As três obras carregam elementos da pesquisa das Bionarrativas Cênicas, metodologia desenvolvida por Taciano Soares a partir de suas pesquisas acadêmicas de mestrado e doutorado e que se tornou uma das principais assinaturas autorais do Ateliê 23. O processo reúne histórias de vida reais, experiências biográficas, acontecimentos históricos e urgências sociais na construção da cena.

Fundado em Manaus por Taciano Soares e Eric Lima, o Ateliê 23 chega aos 13 anos com mais de 30 obras criadas nas artes cênicas, música e audiovisual e uma trajetória marcada pela circulação em diferentes regiões brasileiras.

Entre os trabalhos de referência estão ainda “Da Silva”, que discute racismo estrutural e violência contra corpos negros; “Helena”, construída a partir da vida e das memórias de Helena Soares, mãe de Taciano; e “Ensaio de Despedida”, montagem que posteriormente ganhou uma adaptação para o audiovisual.

No audiovisual, o Ateliê 23 também levou sua pesquisa para o cinema com “A Bela é Poc”, curta-metragem que conquistou o prêmio de melhor atuação nacional no 8º Festival Internacional de Cinema da Diversidade Sexual e de Gênero de Goiás.

A companhia também passou por importantes circuitos e programações nacionais, entre eles o Palco Giratório do Sesc e a mostra “A Ponte”, do Itaú Cultural, além de festivais e mostras em diferentes estados.

Ficha técnica

Direção: Taciano Soares
Dramaturgia: Francis Madson e Taciano Soares
Elenco: Carol Santa Ana, Eric Lima, Emily Danali, Francis Madson e Taciano Soares
Musicistas: Ana Mady e Luana Aranha
Direção musical: Ana Mady e Eric Lima
Composições: Eric Lima
Orientação de performance: Vanja Poty
Figurino e design: Eric Lima
Iluminação: Paulo Martins
Bastidores: Jorge Sabóia
Assessoria de Comunicação: Manuella Barros
Produção executiva: Andiy e Taciano Soares
Fotografias: Eduardo Klinsmann

 

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